"SÓ SEI QUE NADA SEI"
Isso não significa que você deva ficar ignorante
(Na mitologia grega, Koalemos era um demônio ou uma divindade menor, que personificava a estupidez e a tolice. Ele é mencionado apenas duas vezes: por Aristófanes em As Aves, numa breve referência a oferecer uma bebida ao deus da estupidez; e por Plutarco em Vidas Paralelas, ao citar o estadista Cimon Koalemos.)
É comum que uma geração ignorante não compreenda nem mesmo o que significa a própria ignorância — na verdade, isso é tragicamente irônico.
Contudo, esse termo é de simples compreensão: basta procurarmos em qualquer dicionário que lá encontramos algumas definições:
Condição da pessoa que não tem conhecimento da existência ou da funcionalidade de algo.
Estado da pessoa desprovida de conhecimentos; sem cultura; condição de quem não tem estudo. Ignorância literária.
Todas essas definições de ignorância se aplicam perfeitamente àqueles que repetem, sem entender, a frase da moda: ‘só sei que nada sei’.
Por incrível que pareça, esse lema socrático, se tornou popular em nossa cultura e adentrou na era digital adornada por uma ignorância de seu próprio sentido, esvaziando-se assim de todo seu conteúdo real.
O QUE SIGNIFICA ESSA AFIRMAÇÃO?
Para entendermos isso, precisamos focar na própria explicação que Sócrates fornece sobre a sua ignorância, quando se encontra diante do tribunal de Atenas.
Dentre as várias acusações que Sócrates recebe, quero destacar apenas uma:
“Sócrates não reconhece os deuses reconhecidos pelo Estado.”
Alguns dizem que essa acusação estava pressuposta no fato de que Sócrates buscava uma explicação “naturalista” para os fenômenos da própria natureza, e não a explicação mitológica popular.
Todavia, Sócrates não se ocupou por muito tempo desse estudo sobre a natureza. Muito embora, no início, tenha recebido a influência pujante de Anaxágoras, essa influência não perdurou por muito tempo, pois logo ele troca sua reflexão sobre a natureza pela reflexão sobre o ser humano.¹
Como bem destacou o filósofo Søren Kierkegaard, a acusação de não “reconhecimento dos deuses” também não significava que Sócrates não conhecesse toda a mitologia que o cercava. Muito pelo contrário, ele tinha lido muitos poetas e filósofos que falavam sobre os deuses. Sócrates sempre buscava contato direto e prático com as pessoas — com todo tipo de pessoa: artesãos, poetas, políticos, sofistas, generais, estrangeiros e jovens.
Essa característica é tão marcante que, no diálogo Fedro, o próprio Fedro se espanta que o filósofo conhecesse tão mal os arredores da cidade, precisando ser conduzido como um forasteiro. Sócrates então explica:
“Perdão, meu ótimo amigo! Eu desejo aprender. Os campos e as árvores não conseguem me ensinar nada. Somente os homens da capital me ensinam algo.”
( Por isso, no famoso quadro “A Escola de Atenas”, de Rafael, Sócrates aparece deslocado do centro, num canto, em plena conversa e gestos com Alexandre, o Grande, e seu discípulo Antístenes. Com grande inteligência, Rafael assim o posiciona para destacar esse aspecto da filosofia socrática, que era essencialmente vivencial, empírica, feita no diálogo direto com as pessoas — e não apenas na contemplação teórica.)
Ou seja, a ignorância de Sócrates não era de modo nenhum empírica, e muito menos o era no aspecto intelectual — e sobre esse último, não é preciso provar.
O ANTI-INTELECTUALISMO
Durante séculos, o lema “só sei que nada sei” foi compreendida corretamente.
Entretanto, a partir do período moderno e depois com o renascimento do relativismo, o surgimento do anti-intelectualismo digital e a preguiça cognitiva travestida de “humildade”, é que “só sei que nada sei” passou a ser usada como escudo para burrice e preguiça; uma espécie de desculpa esfarrapada, como apontou corretamente Heinrich Theodor Rötscher:
“Com isso, esclarece-se também como é que se deve entender a ignorância socrática, tantas vezes deturpada e que tão seguidamente foi usada como uma boa apologia da própria tolice e como uma defesa contra o reconhecimento do verdadeiro saber. O saber que nada sabia não era, com efeito, como se tem representado comumente, o puro nada vazio.”
Hoje em dia é muito comum escutarmos frases como:
“Ah, nem vou tentar entender isso, porque Sócrates já disse que nada sabemos mesmo.”
As pessoas que dizem isso talvez se assustariam ao saber que isso era o oposto absoluto do que Sócrates praticava.
Sócrates passou a vida buscando conhecimento. Seu ponto nunca foi
“desista de saber”
mas sim:
“tenha humildade para reconhecer que você ainda não sabe — e por isso mesmo, continue buscando”.
Obviamente, ao mencionar isso, devo lembrar a você, caro leitor, que Sócrates não queria com isso provar que é possível, através da razão, chegar ao conhecimento de tudo. Não se trata de uma apologia da onipotência racional.
Sócrates era profundamente consciente de que a razão tem fronteiras. Há mistérios que ela não atravessa. A diferença é que, para ele, esses limites não eram um convite ao abandono da busca, mas exatamente o contrário, essa limitação era o que tornava a busca filosófica eternamente necessária.
Desse modo, podemos definir que a ignorância socrática é a consciência dos limites do conhecimento humano.
Para apoiar esse conceito, cito novamente, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, que, ao falar sobre a ignorância de Sócrates, diz:
“Ele era ignorante quanto àquilo que está no fundamento de TUDO, o eterno.”
(O Conceito de Ironia, Søren Kierkegaard, p. 135)
Ou seja, essa ignorância, tão louvada pelo filósofo, era caracterizada pela limitação da razão humana em não saber de tudo, de forma exaustiva — de forma eterna.
Isto é, o conceito “só sei que nada sei”, não pode significar que ele não sabia nada, Até porque, se fosse assim, seria uma contradição lógica, pois ao menos ele sabia de algo: “que não sabia de nada” — e isso não é um nada.
O EQUILÍBRIO NECESSÁRIO
Uma outra prova disso está na Apologia, lá Platão mostra Sócrates comparando seu conhecimento ao de um sofista chamado Evenos de Paros. Diferente de Sócrates, que nada cobrava, Evenos dava aulas por cinco minas. Nesse contexto, Sócrates diz sobre sua própria sabedoria:
“Mas, por que tipo de sabedoria recebi o nome sábio? Decerto por aquela que é sabedoria humana. Pois é bem possível que eu seja deste tipo.”
Contudo, quando se refere à sabedoria de outras pessoas, ele diz:
“Mas aqueles que eu acabo de citar talvez sejam sábios em uma sabedoria que não é adequada ao homem.”
Aqui, Sócrates, de forma irônica, atribui a sabedoria desses mestres como sendo “superior” à sabedoria humana, todavia muito inferior quando comparada à verdadeira sabedoria que o filósofo considera como a sabedoria eterna.
Essa concepção é ainda reforçada pelo que disse o oráculo de Delfos, que, da perspectiva divina, enxerga exatamente a mesma coisa. O oráculo declara:
“Que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana.”
Como se dissesse: “O mais sábio dentre vós é quem, como Sócrates, reconhece que a sabedoria humana não passa de coisa pequena perto da sabedoria divina.”²
Por isso, devemos tomar cuidado com dois desvios ao interpretar ou até mesmo usar a ignorância socrática:
Termos cuidado em não transformá-la em desculpa para a burrice, como se nada pudéssemos saber.
fazer da razão um deus que tudo alcança — pretensão que marcou o fracasso do positivismo.
A ignorância socrática, em sua essência, é o ponto justo entre esses dois equívocos; é dessa ignorância, a única, que devemos nos orgulhar.
Lembro-me do princípio pré- Socrático: “conhece-te a ti mesmo”, que está totalmente congruente com o conceito de ignorância Socrática antes descrita. Ou seja, lembra-te que és homem e não Deus. Sócrates sabia disso – e isso era o seu não saber.
Bem que poderíamos declarar como o apóstolo:
“Ó profundidade da riqueza da sabedoria
e do conhecimento de Deus!
Quão insondáveis são os seus juízos
e inescrutáveis os seus caminhos!”
Romanos 11.33
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¹ Os períodos pré-socrático e clássico tinham em comum a busca do conhecimento pela via racional. Entretanto, no período pré-socrático (séculos VII-V a.C.) havia uma ênfase na explicação com foco na natureza e no cosmos, por isso o nome cosmologia, com filósofos como Tales, Heráclito e Parmênides. Já no período clássico, a investigação se volta também para o ser humano e a vida na pólis, caracterizando o chamado antropocentrismo grego, com destaque para Sócrates, Platão e Aristóteles. Vale notar que Anaxágoras (500–428 a.C.), embora contemporâneo de Sócrates, mantém ainda uma abordagem predominantemente cosmológica.
² Na Bíblia, ‘oráculo’ (grego logion) designa a autoridade divina das Escrituras. O termo significa ‘breve pronunciamento’ — os oráculos antigos eram tipicamente breves. As Escrituras seriam, pois, a breve voz de Deus, registrada para sempre.




A inteligência, diferentemente da ignorância, contenta-se unicamente com a verdade. Sendo assim, a busca pela verdade, através do conhecimento, é algo natural ao homem que desenvolve sua inteligência; mas, para o ignorante, o caminho do conhecimento é incômodo. Excelente texto, meu amor!
Muito bom! Acho que o pensamento socrático-platônico foi uma das maiores vítimas de corrupções e simplificações da modernidade em diante, desde o mito da caverna, a premissa do conhecimento da própria ignorância ao amor platônico, que se antes era o amor pela alma, hoje em dia passou a ser sinônimo de um amor impossível ou ilusório, um verdadeiro absurdo e completamente oposto a essência da filosofia platônica. Apesar de gostar de Nietzsche eu coloco um pouco na conta dele essa perversão do platonismo que ocorreu na história recente, pois ele faz algumas simplificações de Platão não são apenas absurdas como falaciosas. Daí em diante, parece que pra ser transgressor intelectualmente é preciso romper e descartar a filosofia clássica, literalmente cuspir no prato que comeu. Mesmo no iluminismo caras como o Rousseau ainda era saudoso de Sócrates e da virtude prática que esbarra também em Aristóteles, embora a filosofia de Rousseau seja criticável por outros aspectos.