SE É ÚTIL, É VERDADE?
O custo intelectual do Pragmatismo.
“Existe um único mundo ou muitos? Predestinado ou livre? Material ou espiritual? Eis noções que podem, quaisquer uma delas, ser válidas ou não acerca do mundo, e as disputas a seu respeito são infinitas. O método pragmático, nesses casos, tenta interpretar cada noção traçando suas respectivas consequências práticas. Que diferença prática faria, para qualquer um, se esta ideia, em vez daquela, fosse verdadeira? Se nenhuma diferença prática puder ser detectada, então as alternativas significam a mesma coisa, na prática, e toda a contenda é vã.”
(William James, Pragmatism and the meaning of truth. Cambridge: Harvard University Press, 1979, p. 28.)
Baseados na crença de Nietzsche de que nossa busca pelo conhecimento é, na verdade, uma busca pelo “útil”, e de que não existem fatos, apenas interpretações,1 surge entre os séculos XIX e XX aqueles que ficariam conhecidos como pragmatistas, que focaram na ideia de “utilidade” como categoria epistemológica.
Falo precisamente do pragmatismo norte-americano, que acredito ser o mais influente em nossa geração. Aliás, ele reflete o espírito da cultura americana, orientado para a prática, e não para a teoria; preocupado com “o que funciona” e, por consequência, com o progresso , e não com verdades abstratas.
Entre seus fundadores, talvez o principal seja Charles Sanders Peirce. Seu pensamento e obra são abrangentes, de forma que não conseguirei expô-los aqui. Entretanto, Peirce, à semelhança de pensadores que o precederam, observava com admiração o êxito da ciência na descoberta da verdade, contrastando com a aparente incapacidade dos filósofos de chegarem a um consenso. 2
Charles Sanders Peirce em 1859
Sua ambição era transformar a filosofia, tornando-a mais parecida com a ciência em método e propósito. Ele dizia, por exemplo, que métodos como os de Hegel e Platão não eram confiáveis, pois não eram baseados em fatos observados, afirmando assim a ciência como único método confiável por sua capacidade de observação dos fatos de forma objetiva.
Contudo, isso não significava para Peirce que os outros métodos não possuíam valor. Ele destaca:
obter conforto, controlar as massas ou produzir personalidades fortes. Mas, se alguém deseja alcançar uma legítima crença verdadeira, a ciência é o único caminho.
Isso levanta uma pergunta: como podemos fazer ciência?
O MÉTODO CIENTÍFICO
Segundo Peirce, devemos raciocinar cientificamente utilizando um método chamado “sensismo-comum crítico”, que seria a investigação orientada pelo senso comum. Apesar de falível, é a nossa única alternativa para iniciar.
Peirce identifica as etapas do método científico da seguinte forma:
Abdução: formulação de uma hipótese relevante.
Dedução: determinação de consequências testáveis que se seguiriam se a hipótese fosse verdadeira.
Indução: teste real da hipótese, por meio de seus efeitos práticos.
Daí Peirce formula sua “máxima pragmática”:
“Para aferir o significado de um conceito intelectual, é preciso considerar quais consequências práticas podem resultar da verdade daquele conceito — e a soma dessas consequências constitui o significado total do conceito.”
(Charles S. Peirce, Collected papers of Charles Sanders Peirce. Edição de Charles Hartshorne e Paul Weiss. 6 vols.)
Ou seja, o “cientificismo”- a crença na ciência como a via definitiva para o conhecimento, é o que distingue, em especial, a filosofia de Peirce.
É simplesmente impossível não pensar na implicação desse pensamento em conceitos que não podem ser testados pelos métodos científicos, como Ética e Metafísica, que carecem de significado na filosofia de Peirce. Aliás, ele mesmo não gastou muito tempo na discussão desses conceitos, o que de certo modo abriu margem para que outros pensadores posteriores preenchessem essa lacuna usando o pensamento de Peirce como método.
TEORIA PRAGMÁTICA DA VERDADE
Um dos filósofos que foi mais influenciado por Charles Peirce foi seu grande amigo William James, do qual proferiu as palavras da primeira citação deste artigo.

Na verdade, James foi além da filosofia pragmática do significado de Peirce e desenvolveu uma teoria pragmática da verdade (a verdade é o que funciona).
Peirce repudiou esse desdobramento. Para ele, a verdade era objetiva, independente de nossas vontades, pensamentos ou aspirações. Por essas e outras razões, ele renomeou sua própria posição para “pragmaticismo”, o qual descreveu como:
“um termo feio o bastante para protegê-lo dos sequestradores”.
(Charles S. Peirce, Collected papers of Charles Sanders Peirce. Edição de Charles Hartshorne e Paul Weiss. 6 vols. 1931-1935, 5:414)
Mas fica evidente que James estava sendo simplesmente fiel, até as últimas consequências, ao pensamento de seu amigo. Vejamos novamente as afirmações de William James:
“Existe um único mundo ou muitos? Predestinado ou livre? Material ou espiritual? Eis noções que podem, quaisquer uma delas, ser válidas ou não acerca do mundo, e as disputas a seu respeito são infinitas. O método pragmático, nesses casos, tenta interpretar cada noção traçando suas respectivas consequências práticas. Que diferença prática faria, para qualquer um, se esta ideia, em vez daquela, fosse verdadeira? Se nenhuma diferença prática puder ser detectada, então as alternativas significam a mesma coisa, na prática, e toda a contenda é vã.”
(William James, Pragmatism and the meaning of truth. Cambridge: Harvard University Press, 1979, p. 28.)
Veja como a teoria dos significados de Peirce nos capacita, segundo James, a resolver problemas acerca da verdade. O parágrafo trata da determinação dos significados dos termos e evidencia de que modo a descoberta desses significados pode ser a chave para estabelecer se uma concepção é verdadeira ou falsa, ou até mesmo se a controvérsia é infrutífera.
Desse modo, James afirma que ideias verdadeiras são as que funcionam na prática, que levam a algum lugar, que possuem valor vivo, que obtêm sucesso.
Por isso, James afirma:
“A verdade de uma ideia não é uma propriedade inerte e inerente a ela. A verdade sobrevém a uma ideia. Ela se torna verdadeira, faz-se verdadeira em decorrência dos eventos.”
(William James, Pragmatism and the meaning of truth. Cambridge: Harvard University Press, 1979, p. 95)
Isso deve-se ao fato de Peirce (e os positivistas lógicos) escreverem como se a ciência consistisse em meras observações imparciais. Quando, na verdade, como diversos autores destacaram, a ciência também tem seus vieses e pressupostos, de forma que sua história se parece fortemente com a história de tradições filosóficas, ou mesmo teológicas, em confronto. Esse movimento filosófico me lembrou em muito a persistência dos Sofistas na “vontade” como sendo critério da verdade, como bem destacou Hegel:
“Os sofistas pensavam, no homem puramente subjetivo, e assim declaravam o querer arbitrário como princípio do que era justo, e aquilo que era útil ao sujeito como sendo o último fundamento de determinação.”
(Fil. Da história, Georg W. Friedrich Hegel, P. 327)
Breve conclusão
Ainda que os argumentos pragmáticos solidifiquem a importância das consequências práticas, eles não comprovam que elas sejam suficientes para a determinação do significado ou da verdade. Quem já leu um pouco sobre a história da filosofia medieval pode concluir que o pragmatismo não teria grande adesão entre os filósofos antigos, que traçavam uma distinção muito clara entre o que é verdadeiro e o que é útil.
(René Magritte, O Modelo Vermelho (1935). O estranhamento causado pela fusão entre bota e pé é semelhante ao movimento feito pelo pragmatismo: naturalizar a substituição do real pelo útil. Quando não conseguimos mais distinguir o calçado do corpo, o que serve daquilo que é, perdemos a capacidade de perguntar se aquilo que é útil corresponde, de fato, à verdade. O estranhamento é o sintoma visual dessa perda)
Essa afirmação de Nietzsche teve como ponto de partida o conceito de númeno e fenômeno de Kant. Todavia, enquanto Kant sustenta que o conhecimento se limita ao fenômeno, mas preserva o númeno como uma “coisa em si” existente porém incognoscível, Nietzsche abole completamente essa distinção, argumentando que não se pode falar coerentemente de algo que, por definição, não se conhece. Nesse aspecto, Nietzsche é mais coerente que o próprio Kant, se todo conhecimento passa necessariamente pelo fenômeno, postular a existência de uma realidade inacessível é um passo injustificável, um resquício metafísico que Kant não teria conseguido abandonar.
Por exemplo, Nietzsche era um seguidor patente da teoria da evolução de Darwin e era, naturalmente, um materialista.
Fontes teóricas para formulação do artigo: John Frame, A History of Western Philosophy and Theology; William James, Pragmatism and the Meaning of Truth; Charles S. Peirce, Collected Papers of Charles Sanders Peirce, edição de Charles Hartshorne e Paul Weiss.



